2.9.07

A Cidade das Placas

Não sei se é paranóia dos nativos ou se sou eu que vim do mato mesmo, mas ultimamente tenho observado bastante a mais formal das informais maneiras de comunicação social por estas bandas: as placas. Nas ruas, nos restaurantes, nas empresas, por onde quer que se olhe há muitas delas.

Confesso que, de início, foi consolador saber que a sociedade em si tinha interesse em falar comigo. Talvez porque eu mesmo estivesse muito carente, as placas foram para mim um ombro amigo que, num momento de desespero, diziam-me: vá por ali, não faça isso, pense bem.

Nas ruas, por exemplo, é comum ver placas indicando o rumo de cidades que estão a 500 ou 700 quilômetros. Juro que a primeira vez que vi uma "Rio de Janeiro -->" achei que tratar-se-ia da rua homônima. Pior ainda quando a placa era "Ouro Preto -->". Será a cidade? O bairro? A rua? Humm...talvez o chocolate?

Mas o habitat natural delas não se resume às ruas e estradas. Elas estão nos lugares, nas empresas, gritando para nós, implorando por atenção e exigindo respeito às normas que ditam.

Numa das empresas que trabalho, a copa é infestada por placas:


"FAVOR ECONOMIZAR OS COPOS."
(pelo menos agora eu sei que eles não lavam e reutilizam!!! :D)
"OBJETOS PESSOAIS. FAVOR NÃO MEXER."
(ahn?)
"PÃO DE QUEIJO: R$ 1,00"
(olha o peixe, olha o peixe...)

Nesta mesma empresa, a paisagem do banheiro é ainda mais "rica":

"FAVOR NÃO JOGAR PAPEL NO VASO."
(mesmo quando sai bem pastoso? Vai por mim...você iria me pedir pelamordedeus pra eu jogar no vaso...)

"FAVOR NÃO MEXER NO REGISTRO.

ELE JÁ ESTÁ AJUSTADO À PRESSÃO DA ÁGUA."

(alguém aí curte mexer num registrozinho??)
"NÃO ESQUEÇA DE DAR DESCARGA."
(pô...minha mãe ia se ofender com uma recomendação dessa pro seu filhinho tão bem educado!!)
Em outra empresa, o cenário é mais ameno, mas escatologicamente mais bizarro:

"PRESTE ATENÇÃO NA COR DA SUA URINA."
(como assim, Bial???)
Tem um restaurante aqui, que o povo vai depois da balada pra comer PF. Tu dizes? Pode crer...PF depois da balada! Lá é um paraíso das placas:

"NÃO ATENDEMOS PESSOAS SEM CAMISA."
(na minha terra não iam vender pra ninguém...)

"FAVOR NÃO FAZER BATUCADA NA MESA OU TOCAR QUALQUER INSTRUMENTO MUSICAL."
(ó a censura aí!!! Grandes sambas nasceram de uma batucada na mesa do boteco!!!)

"SOBREMESA: R$ 2,00"
(claro...quem iria procurar no cardápio o preço da sobremesa? Tem que estar na parede mesmo...)
Mundo estranho esse das placas...

5.8.07

Tudo aquilo que faz (ou fará) falta

A alma de uma geração se reconhece através de ícones. Sejam eles sociais, culturais ou políticos, o que nos torna elementos de uma tribo não é nada mais senão as lembranças que teremos das coisas do nosso tempo. Pode parecer que sim, mas insisto que não é óbvio perceber o valor dessas coisas.

Fácil é pensar que tudo envelhece mesmo e que, uma hora ou outra, cada um de nós será apenas uma memória na cabeça dos nossos amigos e parentes. Errado. Seremos lembrança não somente para as pessoas que nos conheceram, mas também para todas as que co-existiram ativa ou silenciosamente em nossa trajetória. Fomos protagonistas nas nossas próprias vidas, mas coadjuvantes nas de milhares.

O mais curioso, no entanto, é que como não somos capazes de vivenciar tudo o que acontece no mundo simultaneamente, há sempre coisas que nossa geração viveu e que não estávamos presentes. Ou seja, é como se houvesse, na verdade, vários tempos ao mesmo tempo. Enquanto você farreava com a galera, sua quase futura ex-namorada conhecia outro cara, com quem casaria anos mais tarde. Mas esse cara um dia vira seu funcionário e décadas depois, numa pelada de fim de semana, você fica sabendo o que aconteceu naquela noite em que você preferiu sair com os amigos.

E aí é como se o tempo voltasse e você então se dá conta de que aquele tempo, aquele tempo que é seu, que você conhece tintim por tintim, aquele tempo não é só seu, nunca foi, e você, você não conhece nada daquele tempo. Você estava ocupado demais com o seu próprio mundo e agora você está sendo apresentado a um fato novo, porém velho. Todo mundo viu, só você não.

Trinta anos depois da faculdade, você descobre que poderia ter-se engajado num movimento político contra as emissões de carbono ou que poderia ter feito daquela banda que hoje todos citam como referência da sua geração a sua própria trilha sonora. Que tinha um cara, que morava na mesma rua que você, gente boa até, que viria entrar pra Academia de Letras e você bem que poderia ter divido uma mesa de bar com ele uma vez ou outra.

É. Você não aproveitou o melhor do seu tempo, loser! Perdeu tempo rindo do que não tinha graça, reclamando da vida que não tinha jeito e falando de bobagens que não serviam pra nada.

Mas há tempo. Acredito que diante desta consciência dos tempos individuais e coletivos paralelos, deve ser comum sentir saudade do tempo que você viveu, mas que não deu tempo de viver tudo o que queria.

Então, imploro a todos os cérebros funcionais desta geração que prestem atenção aos nossos ícones, às pessoas e coisas que vão nos representar para sempre, pois um dia nossos filhos nos perguntarão sobre tudo isso e seria uma vergonha não ter nada a dizer.

28.7.07

"Sem horas e sem dores, respeitável público pagão, síntaxe a vontade..."

É assim que começa o primeiro álbum do Teatro Mágico intitulado "Entrada para raros": uma vinheta curiosa, mas que engana sobre o conteúdo que se segue.

Fui apresentado à banda por um amigo que citou-a quando conversávamos sobre o show do Cordel que iria acontecer em Ouro Preto. Não sei se ele de fato fez alguma comparação entre as duas bandas, talvez tenha sido somente um erro do meu cérebro que associou uma conversa à outra. Bom, o fato é que ambas, apesar de em alguns momentos compartilharem o tema circense, não têm nada mais em comum.

Musicalmente, o Teatro Mágico não se arrisca muito além de cordas. E é verdade que faz magia com simples violões. Um som altamente melódico e verdadeiramente agradável, daqueles que podemos ouvir por horas e horas e horas. Letras totalmente radiofônicas em uma banda que, até onde li, levanta a mais alta das bandeiras da música independente, chegando mesmo a incentivar as pessoas a piratearem seu álbum. O cronista admite que, para as audições que dão origem a esta resenha, não precisaria a banda pedir duas vezes.

Além da que abre o disco, há outras vinhetas durante o álbum como "O carinho de mãe", que finda citando a criatividade do cantor-compositor Fernando Anitelli. Um tanto de auto-apreciação demais. Em "De ontem em diante", o vocalista recita uma bela poesia urbano-contemporânea. Aliás, em diversos momentos do disco, o ouvinte se depara com leitura de poesias, o que deve ser bastante impressionante ao vivo.

Mas o que mais me impressionou na banda foi a semelhança vocal e musical entre o vocalista e Humberto Gessinger. Juro. Se alguém lhe mandar uma música do Teatro Mágico e disser que faz parte do novo disco dos Engenheiros, eu duvido que você não caia. E é aí que mora talvez o principal defeito da banda. Se fosse apenas a voz, mas há também a coincidência melódica e de formatos. Enfim, musicalmente, a comparação é inevitável. Dos trocadilhos com a língua portuguesa ao cantar gemendo, da Ana à exploração do tom grave com melodias doces, quase tudo no Teatro Mágico cheira a Engenheiros do Havaí.

Bom, um dia disseram que Ivete Sangalo imitava Daniela Mercury, que Cláudia Leite imitava Ivete Sangalo e que Maria Rita imitava Elis Regina. E todas elas superaram a comparação e venceram o preconceito. É esperar que eles também vençam.

Recomendo muito "A pedra mais alta", "Pratododia", "Ana e o mar", "O anjo mais velho" e "Camarada d'água". Estas canções, com forte presença de elementos de MPB, Humberto Gessinger não conseguiria fazer, pelo menos não para sua banda.

Ao que dizem, o show do Teatro Mágico é algo imperdível e eu realmente não pretendo perder, tão logo tenha uma oportunidade. Num cenário lúdico, enquanto os músicos, travestidos de palhaços e outros personagens de circo, executam com maestria suas funções, trapezistas completam o ambiente de fábula, fazendo deste um raro espetáculo multi-artístico.

Talvez seja esta a verdadeira magia do Teatro.

22.7.07

O Encanto do Fogo Encordelado

Uma dose cavalar de arte em estado bruto. Esta talvez seja a forma mais justa de definir o espetáculo que assisti ontem no Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Um show memorável de uma das bandas mais criativas desta geração.

A começar pelo cenário, simples e eficiente, composto de peças de arte contemporânea. Uma bela borboleta centralizada e suspensa ao fundo do palco, como se abençoasse os músicos, o público, a celebração. No alto, alguns bonecos, meio múmias, com lâmpadas incandescentes iluminando sua visão. Incandescentes.

No maior templo da cultura mineira e sudestina, o que se via era Nordeste puro! A percussão marcante e soberana. A melodia harmônica, minimalista, precisa. A voz imponente, porém despretensiosa de Lirinha, que assim inteligentemente demonstra que a beleza de sua música passa muito mais por uma impressionantemente rica cena sócio-cultural que por sua própria presença.

Um servo dos loucos de Deus! A presença de palco messiânica do cantor impressiona e contagia. Quase nada a ver com a Bahia, mas o rapaz levanta poeira. Aliás, em vários momentos do show a impressão é de se estar num carnaval fora de época.

O público pula e canta! Não como os hermaníacos, mas canta bonito e pula enfurecido. Um público mais viceral e mais maduro, mais ciente do que se passa à sua frente: cultura nacional genuínia e atual.

As letras que iam se mostrando provavam que a mensagem proposta pelo grupo era brilhantemente executada. Tambores cantando poesia. Violões trovando violência e dor. Teatro virando música. E música virando trovão.

O Cordel passa e aregaça. E promete seguir estrada, mostrando sua paixão, que é mar, parabólica, dilatada, estrada que dói. Parece toda raiz. Só raiz.

Trans. Fi. Gu. Ra. Ção.

17.7.07

Novamente ela

Sou paciente, acreditem. Desde o último post que escrevi sobre a TAM, sofri muito mais do que naquele feriado de 7 de setembro.
No Natal do ano passado levei mais de 30 horas para chegar ao meu destino. Isso depois de ameaçar (e ser ameaçado) de violência explícita. Eu estava numa fase tranqüila e nem fui à justiça nem nada. Mas foi punk. Muito! Prometi a mim mesmo que nunca mais voaria com eles. Não cumpri. Porque sou vítima do duopólio.Não posso deixar de viver por causa deles. Mas dá vontade. Ah dá...
E mesmo assim não postei nada sobre o assunto.
Pouco antes disso, caiu um avião da Gol. O maior acidente da história da aeronáutica brasileira. Registre-se: puro azar. Nenhuma culpa da empresa aérea. Comportamento exemplar da Gol. Site exclusivo para repassar notícias em tons de luto. A Gol também tem suas mazelas, mas perto da concorrente...é uma santa!
Alguns anos antes, uma aeronave da mesma TAM caiu nas redondezas do aeroporto de Congonhas, matando todos os tripulantes/passageiros e várias pessoas em terra, em casa, tomando banho, assitindo TV. Deus me livre de morar ali perto. Prefiro a rua, debaixo da ponte. Não entendo porque precisa haver um aeroporto no meio de uma cidade. Não entendo. Aqui em Belo Horizonte, o aeroporto fica a quase 50km do centro da cidade e todo mundo vive.
Bom, nesse ínterim, caiu porta até de avião da TAM.
Pois bem, hoje, a companhia que nasceu para lucrar pousou numa pista mal-feita e que, pelo que contam, mais parecia um toboágua com destino ao - quanta ironia! - prédio do depósito de cargas da própria TAM.
Culpa do governo que inaugurou uma pista sem que ela estivesse pronta.
Culpa do engenheiro que assinou embaixo da liberação da pista. Vou morrer sendo pião (sic)mandado, mas não assino embaixo de nada que não concorde.
Culpa da empresas que aceitaram colocar seus passageiros e funcionários em risco.
Culpa do controle aéreo que autorizou o piloto a aterrissar, mesmo em condições metereológicas precárias.
Culpa do indivíduo que fez um aeroporto naquele lugar.
Culpa do ser que manteve o aeroporto naquele lugar.
Culpa da criatura que reformou o aeroporto naquele lugar.
Culpa da mídia que fez do caos aéreo um bode espiatório para atacar forças políticas.
Culpa das forças políticas que, no auge da sua cegueira pelo poder, não conseguem pisar no freio e fazer o que tem que ser feito, custe o que custar, desde que não sejam vidas humanas.
Culpa de todo mundo, menos minha e do povo que simplesmente morre.
A gente quer chegar mais rápido a algum lugar e chega.
Ao fim.

13.7.07

Uma nação completamente indigna

Não é pela crítica, porque acho que todos têm direito a uma opinião própria.
É pelo lugar comum.

Virou hábito no Brasil vaiar chefes de Estado. Não precisa ter um motivo. Não importa que ele comande o maior projeto desenvolvimentista que o país já teve. Não importa que todos tenham melhorado de vida durante sua gestão. Não importa que ele tenha colocado o país em pé de igualdade com qualquer nação do planeta. Não importa. Basta que ele seja o chefe de Estado que já merece ser vaiado. Como se fosse fácil! E ele, então, coitado. Cometeu o pecado de vir do mesmo lugar que 80% do povo. Aí já viu. Quem manda vir de baixo? Quem manda não ter um defeito grave quando comparado a todos os antecessores (da colônia ao sociólogo)?

A verdade é que neste país, só se respeita quem é doutor, mesmo que o diploma (de graduação mesmo, não precisa ser de doutorado) seja comprado.
É triste.
Dizem que cada povo tem o governo que merece. Eu discordo.
O Brasil não merece o governo que tem.


Merece menos. Bem menos.

Fica triste não companheiro. Um dia vão te implorar pra voltar. Eu, no seu lugar, mandava todos praquele lugar.

Quem não entendeu, veja: http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u311810.shtml

1.7.07

Pequena reflexão sobre amizade, valores e a palavra

Nunca fui de ter muitos amigos, pelo menos não de assumi-los, mas posso dizer que tive alguns bons. Amigo de bater papo até de madrugada, amigo de conversar sobre o que ninguém mais quer conversar, amigo de amadurecer junto, mas sobretudo amigo de poder compreender e ser compreendido.

Um dia, há algum tempo, um grande amigo teve a oportunidade de ter por perto a mulher que amava. Não dependia de mais nada, senão da vontade dele. Esse amigo teve medo e, apenas alguns meses depois, a mulher que ele amava, que ele queria pro resto da vida, o deixou. Ela estava certa. Ele também estava certo, porque seu medo era justificado.

Porém, no espaço de tempo entre a omissão e o fim, eu o aconselhei várias vezes a optar pela mulher e a abrir mão do medo. Sempre que podia perguntava-lhe como estava a situação entre os dois, se estava caminhando pro bem. Além disso, sempre colocava minha própria experiência em pauta, já que eu também passava pelo mesmo momento de vida. Mas meu amigo tinha outros sonhos, outras ambições. E assim o fez. E assim é feliz.

Recentemente, no entanto, esse mesmo amigo me confessou que se arrepende imensamente de não ter ouvido meus conselhos e que ainda sofre ao pensar que talvez tenha perdido a mulher da sua vida. Não sei se era, de fato. Mas, trata-se de uma grande mulher e que certamente o faria feliz.

Fiquei triste com seu arrependimento, mas, ao mesmo tempo, me senti bem por ter dado um bom conselho a ele. Feliz por saber que eu tenho algum conhecimento bom pra transmitir às pessoas. Por perceber que posso manter amigos por perto e, melhor, que posso fazer bem a eles. Ou seja, é como se esse amigo tivesse aprendido, por meu intermédio, a lição de ouvir sempre os melhores amigos. Existe função mais nobre que ensinar algo a alguém?

Mas o destino é mesmo irônico e, roda mundo, roda gigante, a situação se inverteu. Hoje, eu aprendi uma lição com um amigo. O mesmo amigo. A mesma lição. Não aplicada à mesma situação, mas um arrependimento da mesma cor.