6.6.06

As brigas que perdi

"Se o que sou é também o que eu escolhi ser, aceito a
condição..."
Rodrigo Amarante


É curioso como a vida as vezes parece uma constante releitura de tudo o que passou, principalmente dos fatos tristes. O carro que bati, o chifre que levei, os foras, as demissões, as pessoas que se foram, as provas que entreguei em branco, as aulas que perdi, tudo isso parece cada dia mais vivo.

Hoje um amigo me contou que todos os dias ele acorda e lembra que não terminou um curso de Ciências Contábeis que começou a fazer quando já era formado em Computação. Vejam só que coisa, o cara já era formado, entrou em outra graduação por hobby, arrumou um emprego decente em outra cidade e assim teve de largar o curso de contabilidade. Ou seja, começou como brincadeira e hoje é um trauma enorme pra ele.

Até hoje eu não concluí meu processo de alistamento militar. Fui lá no Exército uma vez e depois nunca mais. Como entrei na faculdade muito novo, não fui exigido de apresentar o certificado de reservista na matrícula. Quando me formei, não me pediram nada e ficou por isso. E este é apenas um dos meus milhares de casos não-resolvidos. Outro dia, para a minha alegria, fiquei sabendo que um velho amigo, hoje oficial, pode me ajudar a resolver isso. Fiquei imensamente feliz. Porque por muito tempo isso foi um trauma pra mim. Assim como o meu amigo das duas graduações, eu também já acordei várias vezes pensando "Por que diabos ainda não terminei isso??". A sensação é de fracasso mesmo. A vida vai passando, os problemas vão ficando maiores, mas os problemas antigos, aqueles que na verdade são uma bobagenzinha de nada, continuam me atormentando e tirando o sono.

Hoje, ao ouvir esse amigo relatar o problema dele, me senti mal. Ele tem uns 10 anos a mais que eu e ainda tem esses problemas que eu achava que eram só meus, só de quem tá começando a vida. Percebi que as coisas não dependem de ninguém, senão de mim. E que, se eu deixar, estes mesmos velhos pequeninos problemas irão me atormentar daqui a 10, 20 ou 50 anos. E então decidi, finalmente, matar estes problemas, resolver todos, um por um.

Meu medo é que estas brigas perdidas já sejam tão parte do que eu sou, que estejam de tal forma entranhadas na minha alma, que eu, derrotado pelo tempo, não consiga esquecê-las, mesmo após vencê-las. Bom, se for assim, que então sejam apenas estas. Nenhuma a mais.

4 comentários:

Anônimo disse...

"minha alma" não pow ! "minh'alma"
soa mais poético : )

ass: Rui Junior

Tana disse...

As brigas perdidas são tão parte de mim também..
Ai, ai..o quanto eu me enquadro nisso!
Muito lindo o texto, Od!!!
Só pude vir aqui ler hj..
Esperando mais um post seu agora..(=

=*

Tomé disse...

Aquelas aulas do J. Neto de redação, valeram a pena para alguns! Principalmente para quem tirou uma Nota 10 na prova. Privilégio de poucos no universo!.
Abraços.

Paulo disse...

Ora, ora, temos muito em comum. Levei exatos 9 anos para resolver minha pendência militar. E só o fiz porque se não tivesse o maldito certificado de reservista não poderia assumir o cargo aqui no Sipam. Senão teria deixado passar mais 9 anos despreocupadamente. De qualquer forma, é o tipo de coisa que se resolve em pouco tempo. Uma multa (mixaria) e um mês e pouco de espera pra ficar pronta a carteira. No meu caso, não precisei nem jurar bandeira (não me pergunte como).

Mas me fizeste pensar sobre outros assuntos não resolvidos. Até hoje não dei andamento em algumas coisas que, puta merda, poderiam ser resolvidas em pouco tempo. E que, se mantendo como ciclos abertos, sei que no futuro vão me trazer grandes problemas.