24.4.06

Brasilianisch de coração!

A menos de dois meses do evento mais importante do calendário brasileiro de anos pares não-múltiplos de 4, o país encontra-se contagiado pelo tradicional clima de “foda-se o mundo, eu quero é ver gol”. E um dos primeiros sintomas disso é o espaço que o tema passa a ocupar na tevê. CPIs, relatórios, vestidos e chuchus cedem seu tempo para Ronaldinho e suas infinitas bolas no travessão, Kaká e sua recém-esposa, Ronaldo e sua já caduca pochete etc. Aliás, é claro que o sucesso das eleições depende do fiasco da canarinho. Sim, pois se o hexa vier, pode até o Enéas ser o próximo presidente que eu e a torcida do Flamengo não estamos nem aí.

E eis que o país vira o centro do patriotismo mundial. Vamos pintar ruas, vamos comprar camisetas de 170 reais, vamos comprar tevês de plasma em 60 vezes. Vamos lá! Todos juntos, brasileiros de coração! Afinal de contas, todos falamos futebol! Aqui é o melhor lugar do mundo, a maior nação do planeta, são 90 milhões em ação, ora bolas! Enfim, aquela baboseira toda que quem tem duas velas no bolo sabe de cor e salteado.

O mais interessante, contudo, é que este ano o clima de oba oba não se limita mais entre o Oiapoque e o Chuíl! Não é mais o café, a cana de açúcar ou a carne sul-mato-grossense. O produto made in brazil mais cobiçado da estação é a EUFORIA VERDE-AMARELA! Você sabe do que estou falando. Aquele sentimento involuntário de torcer para que 11 milionários fiquem ainda mais milionários, balancem as redes e façam a alegria de, antes um país, hoje um mundo inteiro.

É lógico que a Argentina não entra no nosso clima. Eles são mesmo uns do contra. Aliás, ouvi dizer que lá há um outro blog, um tal de La Nación Indigna, que relata a mesma história que este monarca vos conta, porém em azul e branco. E o pior é que nossos pobres hermanos acreditam... É, mas, lá no velho continente isso conta e é de lá que vem boa parte desta recente agitação.

Sim, às vésperas da Copa da Alemanha, a camisa de futebol mais vendida entre os locais do país-sede é a brasileira. Acreditem ou não, nenhum alemão quer desfilar pelas ruas de Munique ou Berlim com a sem graça camiseta branca de sua seleção. Exatamente. O kühl é trajar a canarinho penta-campeã do mundo.

Mas é claro que isso tudo tem explicação.

Reza a lenda que após a Segunda Guerra, os alemães ficaram traumatizados com questões nacionalistas. Assim, qualquer demonstração descarada de orgulho alemão corre o risco de hoje soar como neo-nazista, e a esta altura do campeonato isso é o que eles menos querem. Desta maneira, vestir a camisa da melhor seleção do mundo, que recentemente os ceifou do sonho do tetra-campeonato mostra desprendimento da ambição de vencer.

Além disso, cresce cada vez mais um modo de vida diferente entre os alemães. Conhecidos no mundo inteiro por serem um povo frio, eles agora querem passar a aproveitar mais a vida, levar as coisas menos a sério etc. E vêem no Brasil o melhor modelo possível de país onde tudo é levado mais simpaticamente.

Quem diria, heim? Alemão malandro tá importando jeitinho brasileiro pra se livrar da fama de carniceiro. Fico pensando se o próximo passo não será calçar pantufas e vestir camiseta da Minnie ao invés da verde-amarela.

15.4.06

Irritando a mim mesmo

Não faz muito tempo que comecei a acompanhar esse canal de TV paga, o GNT. Canalzinho simpático até. Bem feminino, repleto de programas de conversação, sentimentalidades e assuntos tanto complicados quanto fúteis. Coisas que eu realmente gosto, mas que ainda tenho certo receio de assumir para mim mesmo. Mas, enfim, nada como a solidão, a ressaca e a insônia para nos mostrarem de verdade quem somos de verdade.

Pois então, eu já tinha notado a presença da moça aí da foto no referido canal (num programa fim de carreira da Rita Lee, um que leva nome de bruxa, personagem de HQ ou coisa do tipo). E a primeira impressão foi definitvamente péssima. Puta que pariu. Sujeitinha boçal. Fala e entorta a boca. Cheia de tatuagens, maquiagem extravagante, metais pelo corpo, aquele tipo de mulher moderna que acha que no sexo é ela quem come o homem, e não o contrário. Enfim, passa bem perto de tudo aquilo que eu menos procuro nas mulheres.

Mas o tempo é o tempo e a ocasião faz o ladrão. Estava eu assistindo a outro programa do mesmo canal no qual ela era apenas coadjuvante. Aliás, suspeito que ela fique melhor nesta função. Pois bem, o programa colhia depoimentos dos convidados sobre as tentações sexuais da vida adulta, onde cada um dava uma opinião aqui e acolá em aparições cíclicas. E como a onda agora é ir contra a moral e os bons costumes, vários convidados falaram que isso é normal, que o importante é aproveitar a vida, deixar os hormônios trabalharem etc. Na verdade, acho que ali todos eram especialistas nas ciências da sacanagem com mestrado em orgias e tudo mais. E eu já podia até imaginar o que ela, a moça da foto, iria dizer a respeito disso tudo.

Sim, porque na minha cabeça, uma mulher contemporânea como ela, feminista que só ela, cheia de posições firmes e de bandeiras sexuais levantadas como ela iria, no mínimo, bradar de peito cheio (de orgulho, não de silicone) já ter-se entregue a dezenas de aventuras simplesmente pelo exercício da liberdade sexual (aquela que chegou com os hippies e foi embora com a AIDS). Que faz parte da nossa condição animal e que ela é que não iria lutar contra seus próprios desejos. Que a auto-repressão sexual é a causa dos maiores males psicológicos do terceiro milênio. E mais um monte de coisa que eu nem posso imaginar. Isso se não fosse além e apregoasse a libertinagem total e pagã. Homo, bi, pluri, pan-sexualidade. Todo mundo nu!

Mas não. Para a minha surpresa, ela foi a única no programa a dizer com todas as letras que jamais cedeu a tentações e que, apesar de se sentir uma estranha por isso, nunca fez sexo casual. Que, para ela, embarcar em aventuras é tentar repetir fases da vida que já passaram. Ou seja, que a putaria generalizada é sintoma de imaturidade.

É isso aí, Fernanda Young! Acho que você já não me irrita tanto.

13.4.06

A Nação Indigna


Fruto de uma infindável meia hora de concepção, de palavras mal pronunciadas, mal selecionadas e mal dispostas, de pouco mais de duas décadas de observação absolutamente parcial, de interesses levemente escusos e de uma boa dose de vontade, A Nação Indigna, mais ousado projeto literário pessoal do menino Junior, está lançada.

Nasceu para dar vazão aos surtos de criatividade que o assolam durante feriados prolongados e noites solitárias. Nasceu também para que ele convença-se definitivamente de que, sim, ele pode falar a multidões (ainda que este espaço nunca alcance mais do que meia dúzia de corações amigos), sim, ele pode analisar seu mundo e até propor soluções, e, sim, ele pode esquecer um pouco dos problemas da realidade cotidiana e embarcar na fantasia de sua própria cabeça.

A Nação pode ser encarada como um plano espiritual paralelo, onde nada faz sentido, mas, curiosamente, a todos soa familiar. Nela, iremos viver momentos intensos, momentos que realmente gostaríamos de realizar e alguns momentos tão tristes que nunca pudemos imaginar. Ao assistir A Nação, todos se sentem parte dela. Tudo é comum e comunitário. Tudo é latente e próximo. Mas apesar disso tudo, A Nação tem um trajeto a percorrer e tão logo este trajeto se cumpra, ela perderá seu sentido e sua existência.

N’A Nação há um Rei, aquele que a dirige e a direciona para os pontos em que deve passar. O Rei, às vezes, tem a nítida impressão de que vive em um conto de fadas. Ele simplesmente não consegue acreditar em certas coisas que lhe ocorrem e sempre busca enxergar o lado bom das situações de sua vida privada, profissional e republicana. Tarefa difícil, mas não impossível. Então, mesmo quando os fatos não colaboram, ele tenta.

A Nação Indigna vai servir aos leitores na medida em que os interesses destes com os do autor se sobreponham. Em qualquer outro caso, o Rei d’A Nação irá fazer prevalecer sua vontade. Porque assim ele quer e porque é assim que é. A Nação não é um lugar democrático, é uma válvula de escape pessoal. Mas é de se esperar que seus interesses coincidam com os dos demais, pois o Rei é bonzinho, ele quer ver o bem d’A Nação. Ao criar seu reino, ele pensou que talvez fugindo de sua pequena existência privada, conseguisse mergulhar no fabuloso mundo público e real.