O presidente, em tom de brincadeira, perguntou ao treinador se o craque realmente está gordo, como andam dizendo pela imprensa. O treinador disse que não. Em seguida, os jornalistas perguntaram ao craque o que ele achou da pergunta do presidente. O craque, cheio de rancor, disse que tanto é mentira que ele está gordo quanto deve ser mentira que o presidente “bebe pra caramba”. E emendou mais alguns resmungues.
É, a história seria razoavelmente comum não fossem os personagens que dela participam.
Ronaldo está gordo, só ele não vê isso. Ou melhor, não admite. Parreira, um gentleman, soube responder com fineza à delicada pergunta do presidente e foi, sem sombra de dúvida, o que melhor se saiu da saia justa criada. Lula, que é um homem do povo e portanto de conversa popular, não teve nenhuma intenção de derrubar Ronaldo, mesmo porque sabe que o sucesso da seleção na Alemanha pode deixar o povo mais alegre e, assim, facilitar sua reeleição.Não, Lula não é bobo.
O presidente questionou o treinador sobre o peso de um dos maiores craques da seleção exatamente para que o treinador, num momento em que o mundo inteiro estaria lhes assistindo, encerrasse de vez a questão e coroasse o craque com o aval do treinador e do presidente. Lula estava delegando ao treinador a função de dar a palavra final sobre o assunto, algo como “dar a deixa” para que Parreira elogiasse o trabalho do jogador e formalizasse sua condição física perante a nação. Mas Ronaldo se melindrou, como um velho chato, que reclama do próprio ronco.
Ronaldo tem sido amargo com a imprensa desde o pesadelo pelo qual passou em 98, quando da perda do título mundial para a França de Zidane. Cobra mais respeito de todos, mas troca de esposa/namorada/ficante a cada estação. Protagoniza episódios absolutamente lamentáveis como, por exemplo, atuar como DJ em uma festa na Suíça, já durante a concentração para o mundial. Ou ainda, agora no âmbito pessoal, deixar de vir ao Brasil quando sua então esposa acabara de perder um bebê, fruto de um casamento-relâmpago, tão badalado quanto superficial.A grosseria do jogador para com o presidente é descabida e horrorosa. Mostra que o sucesso definitivamente lhe subiu à cabeça. Para nós, torcedores e cidadãos brasileiros, a impressão que fica é a de que ele já não se sente menos importante que ninguém, nem mesmo que o presidente de seu próprio país. Isso se considerarmos que ele ainda se declara brasileiro.
Não, Ronaldo não é mais importante para a História que Lula.
Por sua vez, Lula tem feito de seus discursos, tanto de candidato como de presidente, verdadeiras “parábolas do país do futebol”. Corinthiano roxo, chegou até mesmo a receber o argentino Carlitos Tevez no Palácio do Planalto. É, sem dúvida, o presidente mais emotivo e popular que o Brasil já teve após a volta da democracia e o futebol tem sido a maior tônica de seu governo.Ronaldo deveria ter-se retratado publicamente ao presidente, mas o que se viu foi o contrário: um Presidente da República, por meio de uma carta, prestando esclarecimentos a um jogador de futebol, na qual explica suas intenções com uma simples pergunta. O craque aceitou as desculpas e disse já ter superado o problema.
Assunto encerrado, mas a imagem dos personagens fica marcada: o craque está velho, rancoroso e vulnerável. E o presidente está moço, de coração aberto, de bem com a vida e pronto para o bi, digo, para o hexa!