10.6.06

O velho e o moço

A versão oficial é:

O presidente, em tom de brincadeira, perguntou ao treinador se o craque realmente está gordo, como andam dizendo pela imprensa. O treinador disse que não. Em seguida, os jornalistas perguntaram ao craque o que ele achou da pergunta do presidente. O craque, cheio de rancor, disse que tanto é mentira que ele está gordo quanto deve ser mentira que o presidente “bebe pra caramba”. E emendou mais alguns resmungues.

É, a história seria razoavelmente comum não fossem os personagens que dela participam.

Ronaldo está gordo, só ele não vê isso. Ou melhor, não admite. Parreira, um gentleman, soube responder com fineza à delicada pergunta do presidente e foi, sem sombra de dúvida, o que melhor se saiu da saia justa criada. Lula, que é um homem do povo e portanto de conversa popular, não teve nenhuma intenção de derrubar Ronaldo, mesmo porque sabe que o sucesso da seleção na Alemanha pode deixar o povo mais alegre e, assim, facilitar sua reeleição.

Não, Lula não é bobo.

O presidente questionou o treinador sobre o peso de um dos maiores craques da seleção exatamente para que o treinador, num momento em que o mundo inteiro estaria lhes assistindo, encerrasse de vez a questão e coroasse o craque com o aval do treinador e do presidente. Lula estava delegando ao treinador a função de dar a palavra final sobre o assunto, algo como “dar a deixa” para que Parreira elogiasse o trabalho do jogador e formalizasse sua condição física perante a nação. Mas Ronaldo se melindrou, como um velho chato, que reclama do próprio ronco.

Ronaldo tem sido amargo com a imprensa desde o pesadelo pelo qual passou em 98, quando da perda do título mundial para a França de Zidane. Cobra mais respeito de todos, mas troca de esposa/namorada/ficante a cada estação. Protagoniza episódios absolutamente lamentáveis como, por exemplo, atuar como DJ em uma festa na Suíça, já durante a concentração para o mundial. Ou ainda, agora no âmbito pessoal, deixar de vir ao Brasil quando sua então esposa acabara de perder um bebê, fruto de um casamento-relâmpago, tão badalado quanto superficial.

A grosseria do jogador para com o presidente é descabida e horrorosa. Mostra que o sucesso definitivamente lhe subiu à cabeça. Para nós, torcedores e cidadãos brasileiros, a impressão que fica é a de que ele já não se sente menos importante que ninguém, nem mesmo que o presidente de seu próprio país. Isso se considerarmos que ele ainda se declara brasileiro.

Não, Ronaldo não é mais importante para a História que Lula.

Por sua vez, Lula tem feito de seus discursos, tanto de candidato como de presidente, verdadeiras “parábolas do país do futebol”. Corinthiano roxo, chegou até mesmo a receber o argentino Carlitos Tevez no Palácio do Planalto. É, sem dúvida, o presidente mais emotivo e popular que o Brasil já teve após a volta da democracia e o futebol tem sido a maior tônica de seu governo.

Ronaldo deveria ter-se retratado publicamente ao presidente, mas o que se viu foi o contrário: um Presidente da República, por meio de uma carta, prestando esclarecimentos a um jogador de futebol, na qual explica suas intenções com uma simples pergunta. O craque aceitou as desculpas e disse já ter superado o problema.

Assunto encerrado, mas a imagem dos personagens fica marcada: o craque está velho, rancoroso e vulnerável. E o presidente está moço, de coração aberto, de bem com a vida e pronto para o bi, digo, para o hexa!

6.6.06

As brigas que perdi

"Se o que sou é também o que eu escolhi ser, aceito a
condição..."
Rodrigo Amarante


É curioso como a vida as vezes parece uma constante releitura de tudo o que passou, principalmente dos fatos tristes. O carro que bati, o chifre que levei, os foras, as demissões, as pessoas que se foram, as provas que entreguei em branco, as aulas que perdi, tudo isso parece cada dia mais vivo.

Hoje um amigo me contou que todos os dias ele acorda e lembra que não terminou um curso de Ciências Contábeis que começou a fazer quando já era formado em Computação. Vejam só que coisa, o cara já era formado, entrou em outra graduação por hobby, arrumou um emprego decente em outra cidade e assim teve de largar o curso de contabilidade. Ou seja, começou como brincadeira e hoje é um trauma enorme pra ele.

Até hoje eu não concluí meu processo de alistamento militar. Fui lá no Exército uma vez e depois nunca mais. Como entrei na faculdade muito novo, não fui exigido de apresentar o certificado de reservista na matrícula. Quando me formei, não me pediram nada e ficou por isso. E este é apenas um dos meus milhares de casos não-resolvidos. Outro dia, para a minha alegria, fiquei sabendo que um velho amigo, hoje oficial, pode me ajudar a resolver isso. Fiquei imensamente feliz. Porque por muito tempo isso foi um trauma pra mim. Assim como o meu amigo das duas graduações, eu também já acordei várias vezes pensando "Por que diabos ainda não terminei isso??". A sensação é de fracasso mesmo. A vida vai passando, os problemas vão ficando maiores, mas os problemas antigos, aqueles que na verdade são uma bobagenzinha de nada, continuam me atormentando e tirando o sono.

Hoje, ao ouvir esse amigo relatar o problema dele, me senti mal. Ele tem uns 10 anos a mais que eu e ainda tem esses problemas que eu achava que eram só meus, só de quem tá começando a vida. Percebi que as coisas não dependem de ninguém, senão de mim. E que, se eu deixar, estes mesmos velhos pequeninos problemas irão me atormentar daqui a 10, 20 ou 50 anos. E então decidi, finalmente, matar estes problemas, resolver todos, um por um.

Meu medo é que estas brigas perdidas já sejam tão parte do que eu sou, que estejam de tal forma entranhadas na minha alma, que eu, derrotado pelo tempo, não consiga esquecê-las, mesmo após vencê-las. Bom, se for assim, que então sejam apenas estas. Nenhuma a mais.

3.6.06

Como vai você?

Segundo última pesquisa IBOPE sobre as eleições presidenciais, realizada entre 28 e 31 de maio, 71% dos entrevistados responderam estarem satisfeitos ou muito satisfeitos com a vida que vêm levando. Além disso, este percentual se dissolve homogeneamente por todos os critérios de pesquisa, tais como sexo, região, idade, raça, município, instrução e renda. Fato este que torna o resultado bastante confiável.

Será que depois do hexa nossa satisfação com a vida bate a dos alemães?

1.6.06

A minha bula (ou a primeira parte dela)

Este vai para uma nova amiga (ou seja, não é lá grande coisa, afinal ainda tem toda aquela burocracia etc) que compartilha comigo a paixão por Amélie Poulain (tenho fé que um dia ela vai aprender a escrever esse nome certinho...).

O Rei gosta de:

  • Pipoca
  • Comédias românticas
  • Cantarolar paródias homenageando os amigos queridos
  • Estalar os dedões das mãos alheias
  • Olhar a namorada ficar vermelha de vergonha
  • Torrada bauduco com queijo polenghinho
  • Gazetar aula para assistir filmes malucos, comendo pipoca numa sala cheia de velhinhos silenciosos
  • Fazer massagem na namorada
  • Sair de casa sem roteiro definido
  • Coca-cola com muito gelo
  • Indicar filmes e músicas
  • Sentar no chão
  • Nescau gelado com biscoito água e sal com margarina
  • Trilhas sonoras
  • Moqueca de qualquer coisa
  • Encontrar velhos amigos por acaso
  • Fazer comida de madrugada
  • Baixar montes de quinquilharias
  • Comprar pilhas de revistas em aeroportos
  • Descobrir o nome da música assim que começa a tocar
  • Jogar golf no celular
  • Dormir assistindo tevê, acordar assustado, comer um biscoito de chocolate (bono) e voltar a ver tevê
  • Comprar presente para um amigo não tão especial num dia qualquer
  • Banana e canela
  • Ir dormir com sono

O Rei não gosta de:

  • Acordar cedo
  • Andar de avião
  • Funghi
  • Trabalhar no meio do barulho
  • Injustiça
  • Bucho
  • Gente que reclama de tudo
  • Gente que não bebe
  • Gente hipócrita
  • Gente fútil
  • Gente ríspida
  • Obrigação
  • Tentar fazer algo sem saber como
  • Preconceito
  • Não ter papel higiênico no banheiro
  • Polícia
  • Não ser especial, mesmo sabendo que não é
  • Piadinhas corporativas babacas
  • Ser cobrado