22.7.07

O Encanto do Fogo Encordelado

Uma dose cavalar de arte em estado bruto. Esta talvez seja a forma mais justa de definir o espetáculo que assisti ontem no Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana. Um show memorável de uma das bandas mais criativas desta geração.

A começar pelo cenário, simples e eficiente, composto de peças de arte contemporânea. Uma bela borboleta centralizada e suspensa ao fundo do palco, como se abençoasse os músicos, o público, a celebração. No alto, alguns bonecos, meio múmias, com lâmpadas incandescentes iluminando sua visão. Incandescentes.

No maior templo da cultura mineira e sudestina, o que se via era Nordeste puro! A percussão marcante e soberana. A melodia harmônica, minimalista, precisa. A voz imponente, porém despretensiosa de Lirinha, que assim inteligentemente demonstra que a beleza de sua música passa muito mais por uma impressionantemente rica cena sócio-cultural que por sua própria presença.

Um servo dos loucos de Deus! A presença de palco messiânica do cantor impressiona e contagia. Quase nada a ver com a Bahia, mas o rapaz levanta poeira. Aliás, em vários momentos do show a impressão é de se estar num carnaval fora de época.

O público pula e canta! Não como os hermaníacos, mas canta bonito e pula enfurecido. Um público mais viceral e mais maduro, mais ciente do que se passa à sua frente: cultura nacional genuínia e atual.

As letras que iam se mostrando provavam que a mensagem proposta pelo grupo era brilhantemente executada. Tambores cantando poesia. Violões trovando violência e dor. Teatro virando música. E música virando trovão.

O Cordel passa e aregaça. E promete seguir estrada, mostrando sua paixão, que é mar, parabólica, dilatada, estrada que dói. Parece toda raiz. Só raiz.

Trans. Fi. Gu. Ra. Ção.

0 comentários: